domingo, 28 de janeiro de 2024

[Perdido.doc] Paixão Sem Limite (The Crush, 1993)


O AMOR MACHUCA

Trama trata de amor obsessivo, numa mistura entre Lolita (o clássico de 1962) e Atração Fatal (clássico de 1987). A grande curiosidade é que Atração Fatal - sendo considerado na categoria suspense erótico - teve seis indicações ao Oscar 88 incluindo Melhor Filme. O filme de 87 dirigido por Adian Lyne fez escola e trouxe uma legião de filmes do gênero (que trafega entre o drama, o suspense e o erótico) entre os anos 1980 até o fim da primeira metade dos anos 1990, retornando com força total na primeira metade da década de 2000. Lyne, que ficou marcado por assumir obras que constroem dramas de relacionamento - de uma maneira que moldou estilos na cultura pop - foi de 9 1/2 Semanas de Amor a Infidelidade (2002) só para citar alguns de seus sucessos que abordam temas entre fetiches e problemas conjugais de uma forma muito humana e bem realista.

A inspiração de Lyne vem de um grande diretor oitentista - que tem como base o lendário Alfred Hitchcock (o mestre do suspense da era de ouro do cinema) - também considerado o "Hitchcock dos anos 80": Brian de Palma, que inaugurou o suspense erótico com Vestida para Matar (1980). 

Com Paixão sem Limite, a obra de Alan Shapiro se define como o filho mais novo dentre essas inspirações - levando em consideração também uma versão mais simples, mais jovem e até mais pop nesse trajeto. No título original, o longa se chama "The Crush". Crush é um termo que se tornou muito popular nas terminologias da era digital para definir um amor platônico: quando uma pessoa se dedica ao amor não correspondido. Muito diferente do termo shipp (vem de shipping ou relacionamento na tradução) em que uma terceira pessoa mentaliza um casal ficcional - que poderia ser impossível de acontecer - por exemplo*.

Com base nas experiências do próprio diretor e roteirista do projeto, Alan Shapiro, o caso de Paixão Sem Limite é uma história real sobre uma garota que se torna obcecada por um homem mais velho (no caso, o próprio Shapiro) e que a ignora por sua pouca idade. Originalmente, o nome da jovem na história (Darrian Forrester) leva o mesmo da pessoa real. Por esse motivo, Forrester acabou processando Shapiro. Nas exibições da televisão, o seu nome foi trocado de Darrian para Adrian.  

Na história do filme, o protagonista é um jornalista chamado Nicholas Eliot - chamado carinhosamente pela personagem do filme (Darrian) como "Nick", como se ele fosse o seu caso íntimo. Quem fica a cargo do papel de Nicolas é Cary Elwes - que, recentemente, viralizou na web em uma foto estilo a última ceia ao lado de várias lendas da comédia americana para comemorar o aniversário de Jim Carrey. 

Logo na introdução, Nicholas se apresenta de uma forma bem despretensiosa, descontraída e frenética ao som de Hard to Get (Starclub), canção de 92 - em alta naquele período - uma vez que as gravações do filme ocorrem entre 24 de setembro e 20 de novembro de  1992 em Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá. A cena de abertura, inclusive, é cara de videoclipe - referência ao próprio videoclipe da música. Bem anos 90, bem MTV.

É nesse ponto que, se fosse num filme de comédia oitentista, seria peça fundamental para cenas feitas apenas para distrair sem algum propósito. Sendo que, aqui, vemos algo bem humano e bem cotidiano: um homem adulto com liberdade financeira em busca de uma casa para alugar (e a letra da música casa literalmente com esse cotidiano comum do protagonista). O que já nos cria propositalmente um incrível e grande contraste para o que veríamos a seguir. 

Com a chegada de uma jovem caminhando livre, inocente e sem responsabilidade alguma, de patins, Nicolas é surpreendido e freia o carro - a música e o ritmo frenético para por alguns segundos e o adulto e a adolescente cruzam olhares silenciosos. 


Na pele de Darrian, está a eterna e querida patricinha Alícia Silverstone - a eterna crush de muitos adolescentes da geração MTV regada aos videoclipes musicais da banda Aerosmith. Quem aí, dos anos 80, não vai reconhecer a estrela adolescente como a amiga de Liv Tyler (que é filha do vocalista da banda) em suas viagens de estrada descobrindo o mundo (no melhor estilo filme aventureiro de trajeto ou road movie) naqueles videoclipes românticos da década de 90? 

O interessante é que Liv e Alicia seguiram carreira de atrizes em filmes adolescentes icônicos - sucesso de público e de crítica ou quando não o são se tornam filmes do gênero cult. Por exemplo, Beleza Roubada, de 1996, estrelado por Liv Tyler é um belo filme dirigido pelo icônico italiano Bernardo Bertolucci sobre a inocência perdida. Esse foi também um longa envolvendo uma adolescente com história inspirada em momentos da vida do próprio diretor da obra. Recebeu muitos elogios e críticas positivas em seu lançamento e, hoje, na era digital, divide opiniões. As tendências mudam. 

É algo que vai passar a ser recorrente em toda crítica, mas conforme a era digital avança, haverá cada vez menos sensibilidade aos detalhes - principalmente quando há a necessidade de existir tais obras para refletir sobre temas controversos. Ao acompanhar a trama de Paixão sem Limite, notamos algo muito semelhante com a possibilidade daquele fato ter sido real. Por fim, ao investigarmos as curiosidades desta fita, ficamos chocados por descobrir por ser verdade - apesar dos absurdos a ponto de nos fazer cair na risada (como o protagonista, no limite da sua ira, dá um socão na vilã para se defender  que a faz voar longe: podemos considerar que, mesmo na física da ficção, é o soco de um adulto forte e irado numa criança... portanto...)
 
As críticas gerais são divididas entre prato cheio para os mal-intencionados e o grande culpado são os inocentes que apreciam um filme como esse. O mais triste é testemunhar que quem escreve críticas assim - por vezes até mesmo ofendendo atrizes do elenco (e posteriormente recebendo processos por isso) - são todos gabaritados e gostam de esfregar o atestado de profissional do ramo na cara dos outros: só-faz-jornalismo-quem-tem-diploma-de-jornalista. Já quebraram o pau aqui (e fora também) toda vez que citamos isso. Sem necessidade. Uma vez que qualquer pessoa pode fazer uma crítica - e isso é notório da parte de quem realmente é sério. 

Muitas vezes, vejo bons filmes em listas de jornalistas (com milhões de seguidores e inúmeros patrocinadores) que sequer assistiu ao filme - compartilhando desinformações (como as informações recentes que envolvem a trilogia de A História Sem Fim e fomos até a própria atriz de um dos filmes para nos ajudar a desmentir tais fatos). Aqui, pelo menos, somos de nicho, e apesar de contarmos com passagens que constroem histórias criativas, teorias junto a acontecimentos reais com a equipe Santuário e seus afiliados, sempre tentamos nos preocupar com a autenticidade das coisas e sempre respeitar os envolvidos em qualquer uma das obras de entretenimento aqui abordadas (independente das suas avaliações externas). Criamos conteúdo e fazemos críticas usando como base em informações que possam nos ajudar a moldar a crítica da forma mais compreensiva e original possível do que apenas copiar e colar comportamentos da manada - optamos por, diretamente, registrar como elas se comportam.  Não fazemos isso para ser diferente, mas para ser transparente, sincero, sempre íntegro. 

Portanto, levando isso em consideração, podemos seguir no registro descrevendo que a produção do filme se preocupou em nos deixar de maneira expressiva de que a personagem de Alicia tem um Q.I. elevado capaz de notar mínimos detalhes e realizar tarefas, fazendo Nicolas (Elwes) - um adulto de 28 anos - se sentir intelectualmente impotente frente a uma jovem garotinha de 14 anos (prestes a completar 15). Na época do filme, Alicia tinha 16 anos.  

Portanto, ainda que só tenhamos poucas informações de como a história real aconteceu, a Adrian da ficção é uma vilã que sofre do amor não correspondido. Uma adolescente precoce que tem atração por homens adultos é bem coerente para a fantasia que a história quer contar. Claro, para o pensador convencional, não deveria ser uma adolescente, poderia ser qualquer pessoa. Esse tipo de história já foi contada outras vezes e aqui precisa ser diferente porque Paixão Sem Limite é Atração Fatal para a geração MTV. 
É controverso, sim, mas é válida a busca pela ousadia em querer contar que aquele cenário tão incomum é possível - estamos falando de cinema aqui. Discutir problemas sobre diferenças de idade e suas consequências sempre foram um tabu para a sociedade e para a própria ficção - da mesma forma que temas como aparências físicas e relações inter-raciais, por exemplo. Negar isso é o mesmo que proibir mafiosos como protagonistas pela moral e os bons costumes de que tudo precisa ser politicamente correto, se não um criminoso protagonista vai influenciar tendências criminosas na sociedade. Quando, na verdade, a ficção só precisa ser trabalhada a fim de mostrar que aquele caminho tem um preço e o longa de Alan Shapiro, ao menos, demonstra isso.   


No mesmo ano de lançamento do filme, Alicia Silverstone - já a queridinha dos videoclipes do Aerosmith - ganhou 2 prêmios no MTV Movie Awards 93: Melhor Revelação e Melhor Vilã, sendo indicada para a Mulher Mais Desejada.


Alicia está perfeita e carismática como a antagonista da obra. Na pele da jovem Forrester - da inocência dos patins às expressivas caras e bocas, tons de olhares sérios, misteriosos, malícia e excitação que se desmancha para o ciúme e a raiva: encantando e amedrontando o espectador da maneira certa com sua mistura de empatia e frieza emocional.


Como o pai de Alicia, está Kurtwood Smith (Cliff Forrester). Um dos principais antagonista icônicos de Robocop, realizando uma figura paterna serena que se transforma numa força emocional posteriormente.

O personagem Nicolas (Elwes) é um jornalista trabalhando para uma empresa de publicidade. Isso é interessante, quando podemos observar que ele diz a Darrian que o computador é tudo o que ele tem - estamos em 1993 e computadores era ainda um cenário pouco habitual para as terras brasileiras.

Ainda que pareça um filme feito para a televisão, os nomes envolvidos dá a cara de superprodução, mas a obra foi feita para o cinema com um orçamento baixo (algo em torno de U$$ 6 Milhões e faturando aproximadamente U$$ 14 milhões). Teoricamente, é também lembrado como um fenômeno cult, um daqueles filmes de suspense cultuados pelos espectadores do Supercine .


A grande surpresa na composição instrumental da trilha sonora, é Graeme Revell - que também teria trabalhado em outras produções do gênero e no ano seguinte trabalharia com Street Fighter



MEMORIAS.doc

*A TEORIA DO SHIPP
Em Arquivo X, uma das provaveis origens do termo shipp viria da década de 90 com Mulder e Scully. Constantes registros nas revistas da época mostravam fãs torcendo para o casal se tornarem um par.



GALERIA.ZIP

VHS



DVD


CARTAZES, CENAS & BASTIDORES




PERDIDO.DOC

PAIXÃO SEM LIMITE
Gênero: Suspense
Duração: 86 Minutos

Essa atração foi assinada por: Perdido no Tempo 

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