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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

[Sessão Crítica] O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio

A SEQUÊNCIA CORRETA

Depois de uma seção enjoada de refilmagens de longas bem resolvidos, uma interessante empreitada vem acontecendo que é: sequências de produções consagradas na cultura pop que ignoram outras sequências mal sucedidas do ponto de vista crítico - iniciadas por Halloween em 2018 (sequência direta do clássico original de 1978).

Essa questão mais pessoal foi timidamente embutida em cinesséries como Rocky - Um Lutador (1976), quando Stallone decidiu revivê-la em 2006 com Rocky Balboa, praticamente ignorando os eventos de desfecho sugeridos por Rocky V. Este quinto da cronologia, de 1990, particularmente detestado - não só pela crítica especializada como pelo próprio astro da obra (embora o trauma da baixa bilheteria pode ter contribuído para o seu posicionamento - quando dói no bolso, os astros reclamam. Absolutamente normal e nada de novo no front).

Muito bem, esse tipo de atitude dos realizadores, em ignorar eventos, acaba por criar uma cronologia confusa e arriscada - já que o que está feito, está feito lá trás e não tem como simplesmente lançar algo tão original como ele (e as suas sequências) se tivessem lançado em sua devida época ou pelo menos aguardassem o momento certo para a sua realização.  Em alguns casos, é curioso ver certas obras pensadas para serem lançadas em sua época original mas engavetadas por muitos problemas - como é o caso do inédito Robocop Returns - sequência do Robocop: O Policial do Futuro - ainda a ser lançado.

Ainda que esse tipo de sequência de clássico o risco seja o de impactar uma grande audiência ou obter a ignoração dela ou até não ser bem compreendida por espectadores leigos - por acharem que este se trata de mais uma sequência no filão do baile  - para a tribo dos fãs de quadrinhos, conviver com multiversos completamente distintos em suas diversas fases nas páginas da DC e Marvel da vida, pode soar normal. A empreitada pode ser plausível, desde que ela seja um tipo de obra que venha realmente com o intuito de tentar corrigir todo o vício comercial em querer empurrar a todo custo histórias dispensáveis só para ser um filme de temporada, destruindo assim toda a boa reputação (até seu desgaste) de uma história cinematográfica muito bem decidida e encerrada. Porém, a sua importância - em aumentar seu público ou trazer uma nova audiência - pode estar vivendo em uma época tarde demais.

Todo bom fã de ação e ficção científica sabe da importância de O Exterminador do Futuro e O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final e a bola fora que suas tentativas de dar sequência a ideias já bem fechadas tiveram, após a saída do (todo poderoso mestre) James Cameron na direção.

Já adiantando que todo o círculo da trama elaborada entre os dois primeiros episódios da cinessérie se fecham muito bem em seu encerramento (tanto é que o título Julgamento Final do segundo filme já define que não há nada mais a ser explorado). Como um bom observador e fiel a cada detalhe - a excentricidade de Cameron em suas obras sempre fará falta quando ele não está na direção (mesmo que esteja ali como produtor).

O Exterminador 1 e 2 são perfeitos encaixes que, quando separados, podemos se classificar da seguinte forma: o primeiro (quase experimental e perfeito - em parte, trabalhado como um filme independente) mistura terror e ação dentro de um gênero de ficção científica enquanto o segundo expande o campo prático (Cameron, com muito mais dinheiro na caixa), reinventando o gênero ação
na forma de dar sequência a um clássico já bem definido em seus mistos de gênero - da mesma maneira como ele já havia apresentado anteriormente em produções como Aliens O Resgate - sequência de Alien: O Oitavo Passageiro (1979) - o dobro de armas, de explosões e tensões (algo muito tradicional com sequências mas nunca tão bem dosadas e tão bem explorada em outras vertentes como o canadense, na cadeira de diretor, faz). A diferença é que, em Alien - o primeiro era dirigido por outro ícone, Ridley Scott - em O Exterminador do Futuro 2, Cameron teve o desafio de se superar e conseguiu.

Se em O Exterminador do Futuro a ideia era o terror psicológico do futuro, em O Exterminador do Futuro 2, a ideia é se questionar do perigo sobre as máquinas ganharem consciência. Existem questões diferentes  e sentimentos diferente entre as duas obras que vão além da caçada de gato e rato. As sequências (nitidamente desnecessárias) que vieram a seguir não passaram sequer melhores consciências filosóficas à história ou qualquer outro cenário interessante que pudesse explorar elementos nunca vistos anteriormente.
Chamada de O Exterminador do Futuro 2 (3D): Através do Tempo,
curta interativo mostra um conceito perfeito sobre o que poderia ser um T3

Em minha consciência, um Exterminador 3 legítimo deveria ocorrer no futuro - se passando ainda antes dos eventos dos dois primeiros, em meio às guerras, explorando a tecnologia (como túnel do tempo) e como as máquinas são enviadas (uma gama de fundamentos científicos ignorados em longas posteriores que preferiram ficar resumidos a nostalgia).  O Exterminador do Futuro: A Salvação (o quarto da cinessérie) bem que tentou, mas não salvou essa ideia por ser mais um preso à sombra de referências visuais a momentos familiares, o que o torna quase a leitura de um desenho americano infantil feito para TV só que com alto orçamento (o que faz pensar que: a ameaça proposta na história não é interessante e sequer assusta). Até O Exterminador do Futuro 2: 3D ( no original: Terminator 2 (3D): Full Across Time, uma edição especial lançada para os parques da Universal Studios na Flórida) conseguiu ao menos trazer elementos mais bem encaixados daquilo que seria um futuro pós-apocalíptico pensado originalmente pelos dois filmes clássicos. Mesmo que seja apenas um curta interativo, foi apresentado um conceito de algo muito mais coerente acerca de um futuro eternamente escuro e solitário. Curiosamente, este trabalho foi realizado em 1996, praticamente 1 ano antes dos acontecimentos previstos da tragédia vista na duologia.

A grande rigidez com que James Cameron impõe (em seus trabalhos, quando está assumindo a direção) torna qualquer um de seus longas um espetáculo incomparável, seja na forma de apresentar uma tecnologia ou na forma de contar uma história e as suas transformações dramáticas (por mais clichê que ele seja - como Avatar).  A maior surpresa de Terminator 6 (como casualmente é chamado) é a produtora de Cameron creditada no longa (Lightstorm Entertainment). Ainda que ele esteja na produção, não é um filme legítimo do mestre Cameron, mas ao menos sentimos carregar um peso dele na forma de olhar o longa.

O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio é seguramente o melhor Exterminador 3 - que sucedeu naturalmente o segundo (além de melhor sequência da história) sem forçar a barra. Porém, o que definiu o desfecho de tudo, como sempre, continua a ser ignorado mas, de qualquer forma, entrega o melhor ambiente de história " E se fosse ? " caso ainda acredite (assim como eu) que nada pode superar o segundo longa metragem com nenhuma outra história que inventem do Exterminador, exceto pela condição sugerida há dois parágrafos acima (ou se algum dia decidirem colocar Robocop contra O Exterminador do Futuro exatamente como aquele clima das histórias em quadrinhos e dos videogames - mais aí é sonhar demais).

Um retorno às origens foi a melhor coisa que já inventaram nesses últimos anos para resgatar grandes histórias do cinema. Destino Sombrio consegue atualizar e se situar devidamente no ambiente originalmente apresentado pela duologia sem parecer datado - talvez até melhor que Star Wars: O Despertar da Força - ainda que se tenha inevitáveis sentimentos de nostalgia em suas referências (clichê tradicional de sequências que tiram a sua própria identidade autoral) sendo em diálogos e situações visuais.

Sobre a falta de identidade, nesse caso, , está mais relacionado a diálogos - sem maiores ambições em incluir uma frase de marca para plantar território por aqui - o "outro" T3, o felizmente descartado, O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas, tem a fala "- Fale com a Minha Mão", ao menos tentaram lá em 2003.

Essa retomada consegue trazer um suspense convincente (na linha que tenta retomar o estilo terror do primeiro). Mas o grande espetáculo está mesmo na volatilidade da pancadaria - seja no mano a mano ou em grupo. O capricho visual está na forma artística de luz e sombra da fotografia em meio a sequências violentíssimas, como as estreladas por Gabriel Luna (Rev-9),  e uma melhor e mais fiel visão do futuro visto nas memórias sombrias dos dois primeiros longas.

Mesmo com poucas falas, o vilão de O Julgamento Final, amendrontava pela sua evolução física em comparação ao do primeiro - insuperavelmente criativo na narrativa e cientificamente assustador. Rev-9 não surpreendeu em sua divulgação  mas, em ação, no longa, é tão assustador quanto o seu antecessor.

O conceito de humanização da tecnologia - bem questionadas no segundo - abre aqui uma nova vertente para a questão. Fora isso, um elemento muito importante que poderiam abrir um tempo maior (a substituição silenciosa do homem pela máquina nas formas de trabalho) ainda que tenha deixado isso apenas sugestivo.

Destino Sombrio é quase perfeito como sequência de um clássico moderno, se não se prendesse também a nostalgia de remeter sempre o tema principal em suas diferentes interpretações nas mãos de Junkie XL (uma pena Brad Fidel ter recusado a proposta em nos entregar uma continuidade verdadeiramente nova).

Linda Hamilton, alicerce indispensável da obra, retorna como Sarah Connor após 28 anos - nos questionando se foi pela falta dela que as sequências posteriores ao de 91 eram (ou deixaram de ser) legítimas - fora a tecnologia em buscar transpor um encaixe perfeito entre essas transições do tempo e que evoluiu de uma forma espetacular e convincente. Linda transparece com vigor a evolução de sua personagem - já bem durona como bad girl no segundo e agora, praticamente, uma veterana de guerra antes do apocalipse - isso sem deixar de lado algum tipo de consciência emocional diante de suas ações - também confrontadas por Mackenzie Davis (Gracie), que intercala esse sentimento.

Esse duo entre gerações soa interessante ao apresentar Natalia Reyes (Dani Ramos), Davis e Hamilton em conjunto. Para um mundo atual, aonde o protagonismo feminino é tão enraizado nos movimentos sociais, as personagens trabalham naturalmente em cena contra a ameaça comumente na figura máscula, nos convencendo de que as ações e reações tentam trazer alguma coerência em relação as limitações físicas nas determinadas situações que exige ritmo ou envolvimento do público para poder se identificar com as personagens (ninguém se sentirá excluído se importando com o sexo oposto em cena). Pra uma obra de ficção - e da importância heroica das heroínas (especialmente Sarah) - as supervalorizações em cena são levadas em consideração (desde que você não se esqueça de que está assistindo a uma obra de ficção).

SESSÃO CRÍTICA
O EXTERMINADOR DO FUTURO: 
DESTINO SOMBRIO

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