quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

[Sessão Crítica] Uma Batalha Após a Outra

O CAOS DE ONTEM 
E A SOBREVIVÊNCIA DO AMANHÃ


Comédia de humor negro do cultuado diretor Paul Thomas Anderson, cineasta que já demonstrou habilidade emocional para lidar com conceitos familiares e sugestivas sequências de ação envolvendo drama e suspense em algumas de suas obras.

Uma Batalha Após a Outra sugere, de uma forma mais expressiva, o trabalho criativo do cineasta ao lidar com sequências de ação e formas pouco tradicionais para lidar com tensão. O resultado é puro lucro para o espectador.

Adaptado do livro Vineland, romance de Thomas Pynchon de 1990, atualiza conceitos do cenário épico para o mundo atual. No livro original, a história envolvia transições entre os anos 60 e 1984. É possível notar alguns elementos criativos na projeção quanto ao uso de tecnologias por meio de personagens pouco habituadas — como eles reagem ou o receio delas (ainda que de forma livremente interpretativa).

Não se tem especificamente o lado certo e o lado errado — tanto político ou social — mas o exagero desses lados, até que ponto tudo isso pode chegar. Algo muito relacionado em obras cinematográficas antes da polarização dos anos 2020, com base em movimentos que vinham se intensificando nos anos 2010 e tornaram enredos muito engessados, limitados, quadrados ou previsíveis. Um ponto negativo que enfraquece um movimento tão importante que é a luta pela igualdade.

A brincadeira é com todos os lados da moeda, sem que ninguém saia ofendido. O foco em reinventar ação é um fator inédito na carreira de Paul Thomas Anderson — diretor que ficou marcado por ser especializado em romance. Romance envolve drama, o que colocou Paul Thomas como um dos melhores diretores do gênero com Magnólia, de 1999, trazendo a segunda indicação do astro Tom Cruise em um drama. Embriagado de Amor — de 2002, rara surpresa em sua filmografia, conduzindo um ator popular dos besteiróis em meio a uma transição de décadas, entre fim dos anos 90 para começo dos anos 2000: nada mais, nada menos do que Adam Sandler, em um raro filme cult de sua filmografia e um de seus melhores trabalhos de atuação ao lado de Click.

No elenco, tradicionalmente, atores de drama escalados explorando vertentes ousadas como as estrelas Leonardo DiCaprio e Sean Penn. Paul Thomas pensou duas ideias para Uma Batalha Após a Outra: uma para um clássico filme de ação americano com perseguição de carros (muito tradicional entre os anos 80 e 90 — herança de clássicos filmes policiais dos anos 70) e outra sobre uma revolucionária feminina. E houve uma mescla.

Inicialmente planejado para os anos 2000, o projeto ficou em algum processo de arquivamento. Por se sentir preso ao seu rótulo com filmes de romance, o diretor esperou alguns anos para amadurecer a ideia, assim nasceu a abertura para uma mistura de temáticas: ação e política.

DiCaprio é Bob Ferguson. Pai moderno e a identidade do homem submisso. Vive na paranoia e procura encontrar a tranquilidade através dos familiares métodos químicos, ex-rebelde que, ao descobrir novas responsabilidades, se tornou alguém vulnerável e protetor. O astro já mostrou desde sempre que é o gênio da atuação, desconstruindo a imagem do galã que a clássica mídia tradicional tentava emplacar e aqui, mais uma vez, expressa uma nova vertente: de um pai que tenta lidar com o próprio passado enquanto tenta proteger a filha adolescente.

Sean Penn é o Coronel Lockjaw. O lado mais rígido da liderança masculina. Ele representa a autoridade implacável, a perseguição estatal e o autoritarismo. A "batalha" entre eles (DiCaprio e Penn) não é apenas física, mas de ideologias e temperamentos.

Benício Del Toro é a surpresa como o sensei Sérgio St. Carlos. Aquele que está sempre procurando ser o alívio cômico da história, mantendo a calmaria através da sabedoria dos ensinamentos das artes marciais mesmo em casos de tensão; quando não se tem mais saídas, ele encontra sempre uma maneira criativa de fugir daquele lugar — ainda que embriagado.

Chase Infiniti é a revelação do ano, como Willa. Ela é o coração do filme. A ideia de que ela foi "treinada desde pequena" conecta-se ao fato de ser filha de revolucionários. Habilidades e sagacidade feitas para pura sobrevivência e o reflexo dos excessos contrastam em Willa, de alguma forma.

O Legado de Perfidia: A mãe de Willa (Teyana Taylor) introduz essa camada de "revolução feminina". A luta de Willa para descobrir sua própria identidade (especialmente com a revelação sobre sua paternidade biológica) é o que move o filme para além de um simples thriller de ação. O filme satiriza tanto o autoritarismo de extrema-direita (o Christmas Adventurers Club) quanto as contradições dos grupos revolucionários de esquerda (o French 75).

Apesar de tudo, Uma Batalha Após a Outra é muito mais do que política social, ele traz um DNA dos filmes clássicos de Paul Thomas Anderson. É sobre reconexão familiar em meio ao barulho da sociedade do século XXI. Pedida fácil para faturar o Oscar? Vamos torcer pelas indicações e vitórias.


 MEMÓRIA PÓS-CRITICA 

PAUL THOMAS ANDERSON EM METAL GEAR SOLID

Noticiado nas proximidades de 2007, época do lançamento de Sangue Negro, esse foi um dos rolês mais aleatórios entre a comunidade de cinema e de videogames já vistos.

Geralmente, as adaptações de videogame eram mais conhecidas pela canastrice ou baixa qualidade, com pouco ou nenhum interesse de diretores renomados — feitas apenas para pegar a "febre da temporada", embarcando em nomes de sucesso de uma geração. Estavam muito longe do cinema arte, até encontrarmos obras como Fallout e The Last of Us (ao menos na televisão). Foi então que as premiações e os críticos puderam olhar e ver que é, sim, possível realizar obras memoráveis para o cinema adaptado de um jogo.

Os burburinhos nos bastidores chegaram a criar uma confusão na comunidade, associando Paul Thomas Anderson a Paul W.S. Anderson, diretor de Mortal Kombat: O Filme e Resident Evil (2001). A diferença é que Paul Thomas é o icônico diretor de filmes cultuados desde a década de 90, para uma audiência interessada no cinema arte, enquanto o W.S. Anderson é o especialista em grandes sucessos de adaptações que, para o bem ou para o mal, tem em Mortal Kombat um de seus melhores momentos ao lado de O Enigma do Horizonte (1996) — um terror espacial que, curiosamente, foi o motivo de ele ter recusado dirigir Mortal Kombat II. Independente da decisão do diretor, a New Line Cinema não quis perder o viral e seguiu com a sequência Mortal Kombat: A Aniquilação, de 1997.

Paul Thomas é cultuado desde sua estreia em Boogie Nights: Prazer sem Limites, projeção de 97 que continua a ser um de seus sucessos de crítica pouco conhecidos pelo grande público. Um verdadeiro diamante a ser lapidado.

Ainda que tenham sido apenas boatos muito convincentes, seria um nome interessante se tivesse sido reforçado pelo próprio realizador Hideo Kojima para uma adaptação de seu icônico Metal Gear Solid. Pelo que se soube na época, Anderson não estava cotado para dirigir, mas sim Kojima para produzir. Seria fascinante ver como Paul Thomas exploraria a conexão familiar sugerida no PlayStation, como a relação entre irmãos, clonagem e a tensão política entre heróis e vilões. Ao menos em Uma Batalha Após a Outra, que não é abertamente uma luta do bem contra o mal, ele sugere o conflito emocional em meio a sequências de ação, com orçamento maior e mais acessível, permitindo ao entusiasta imaginar como seria esse encontro entre o cinema arte e a narrativa dos games na tela grande.



GALERIA





 SESSÃO CRÍTICA 

UMA BATALHA APÓS A OUTRA

Disponível na HBO MAX com sessão acompanhada em 31 de dezembro de 2025 às 22:00. 

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