domingo, 15 de fevereiro de 2026

[Sessão Crítica] Pecadores




Ryan Coogler (Pantera Negra) volta ao circuito de premiações em grande estilo com Pecadores, trazendo Michael B. Jordan em dose dupla graças a uma tecnologia criativa e complexa. O ator interpreta dois personagens simultaneamente, combinando atuação tradicional com o trabalho de dublês e substituição digital do corpo por efeitos visuais.

O recurso lembra a tecnologia utilizada em Avatar, de James Cameron — uma espécie de equipamento com câmeras presas ao corpo, capaz de registrar com precisão cada movimento do ator e transferir sua performance para o personagem digital.
Michael B. Jordan em dois papéis, aliado à condução detalhista da narrativa, faz com que o espectador sinta vontade de revisitar o filme para absorver melhor a experiência.

A temática de terror surge como um tempero moderno dentro de uma estrutura épica, envolvendo a transição histórica do blues e o drama das relações familiares.

Como todo “filme de origem”, o ritmo inicial é levemente arrastado, preocupado em desenvolver personagens e contexto. Ainda assim, há destaques importantes, como Delroy Lindo, uma grande surpresa pela força e complexidade de seu personagem.

Coogler alterna elementos históricos reais com fantasia, reforçando a sensação de que o cinema está se reinventando ao dialogar com a era dos filmes de super-heróis sem perder sua identidade artística.

Apesar da violência explícita, o filme apresenta uma proposta sofisticada, com fortes chances de reconhecimento pela Academia.
O diferencial está na criatividade da direção, que impacta tanto na violência visual quanto na sugestiva, potencializada pela edição e pelo uso eficiente do som, que contribui diretamente para a atmosfera de suspense — valorizando ainda mais a experiência em uma sala de cinema.

A narrativa também apresenta sua própria mitologia dos vampiros. Mesmo com a morte do líder, os demais continuam existindo. A imortalidade é retratada como uma maldição sedutora, representada pelo vilão Remmick, interpretado por Jack O’Connell, que oferece aos protagonistas uma alternativa de pertencimento eterno.

Por outro lado, o filme também mostra o lado monstruoso dessas criaturas, com olhos vermelhos e comportamento cabalístico, reforçando o horror.
Ambientado durante a segregação racial no Mississippi, o longa dialoga com o mito popular de que o talento musical atrai forças sobrenaturais.
O destaque vai para Miles Caton, como Sammie Moore, que humaniza o conflito e conduz a narrativa para um tom filosófico sobre o preço da eternidade.
Vale destacar ainda que as cenas durante os créditos são essenciais para a construção da história.


ATENÇÃO: FiQUEM DEPOIS DOS CRÉDITOS 



MOMENTO PÓS-CRÍTICA 

A SINA de PECADORES 

Como já ocorreu diversas vezes, o Oscar costuma, simbolicamente, “se desculpar” por injustiças cometidas no passado.

Pecadores pode acabar representando uma reparação histórica indireta de um caso extremamente polêmico completando 40 anos em 2026 — e hoje quase esquecido. Em 1986, A Cor Púrpura, dirigido por Steven Spielberg, recebeu 11 indicações e saiu da premiação sem nenhuma vitória.

O longa apresentava um elenco majoritariamente negro e abordava a segregação racial em uma narrativa épica, muitas vezes comparada a E o Vento Levou, mas com uma carga dramática ainda mais íntima e brutal sobre dor, resistência e superação.
Surge então a pergunta inevitável: será que Pecadores terá o mesmo destino, mesmo com 16 indicações e sob a direção de Ryan Coogler?

O contexto atual, no entanto, é diferente.

Vivemos em uma era mais consciente das pautas de inclusão e diversidade, amplificadas pelas redes sociais, que transformaram o debate público em um tribunal permanente — capaz de gerar tanto avanços importantes quanto pressões intensas e controversas sobre a própria Academia.


O BLADE que NUNCA FOI

Este talvez tenha sido o Blade que a Marvel Studios tanto queria fazer — mas nunca conseguiu.

Após um longo e conturbado processo de desenvolvimento, conduzido pelo ator Mahershala Ali, o projeto de Blade no MCU acabou sendo oficialmente cancelado. Um dos principais desafios provavelmente envolvia o nível de violência e a classificação etária, elementos essenciais para a mitologia do personagem.
Uma das versões iniciais da história se passaria nos anos 1920. Curiosamente, Pecadores se passa em um período próximo, na década seguinte, explorando um contexto histórico semelhante.

Parte do que restou do projeto cancelado acabou encontrando novo destino. Pecadores aproveitou elementos da mesma equipe criativa, incluindo design de produção e figurinos originalmente concebidos para Blade. Na prática, é como se estivéssemos vendo, conceitualmente, uma versão alternativa daquele projeto — desta vez sob o comando da Warner Bros..
O resultado fala por si. O filme se tornou um sucesso de bilheteria, reforçando a sensação de que a Marvel deixou escapar uma grande oportunidade.

Eu sempre defendi que não seria fácil para o MCU se reinventar após Vingadores: Ultimato.

Grandes sagas cinematográficas, quando alcançam um encerramento épico após uma longa construção, raramente conseguem continuar sem perder parte de sua força ou sem recorrer à repetição.

Diferente dos videogames, que conseguem se sustentar por meio da evolução gráfica e da jogabilidade, o cinema depende fundamentalmente de seus personagens e, principalmente, do carisma dos atores que os interpretam.

No fim, ainda são eles que carregam o peso do legado.

Apesar de a mitologia dos astros de Hollywood ter perdido parte de sua aura de mistério com o surgimento das redes sociais, alguns nomes, como Tom Cruise e Keanu Reeves, ainda sustentam o peso de um legado construído ao longo de décadas — muitas vezes se tornando maiores do que os próprios personagens fictícios que interpretam.


SESSÃO CRÍTICA PECADORES
Sessão Acompanhada:
HBO MAX (14/ 02/ 2026 - 20:00)
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