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domingo, 1 de junho de 2014

[Sessão Crítica] Malévola 3D

NESTA POSTAGEM
SESSÃO CRÍTICA
MALÉVOLA

EXTRA
A ORIGEM (QUASE) SECRETA DA BELA ADORMECIDA
FICHA TÉCNICA


SESSÃO CRÍTICA
MALÉVOLA

E O FEITIÇO FICA 
A FAVOR DA FEITICEIRA

Nova Malévola não assusta e é romântica

Já não é de hoje que vilões passaram a se tornar preferência do público. Desde que foram romantizados, a moda é achar que "preto" é melhor que "branco". Tudo bem, eu aprendi a gostar de preto. A cor preta é bonita e pode combinar com tudo, mas vamos maneirar na veneração. Tal veneração que muitas vezes as pessoas se convencem de que o "mal sempre vence" na realidade. 

O maior exemplo que podemos pegar de nossa realidade é a teoria dos vilões - elas inspiram mais do que a dos heróis. Logo então vemos as "autoridades" da bandidagem se denominando como "A Liga da Justiça" - convencendo a comunidade mais humilde que o símbolo do Batman é "ameaçador" - ou então garotos vestidos de preto - como os personagens de Matrix - causando o massacre numa certa Columbine. Envolvendo isso e outros fatores - como o de pais que matam filhos ou vice-versa - encontramos a definição de que "O amor não existe". Vivemos sim, em uma época sem amor - para muitos, o amor não existe mais esperança de nascer.

E por quê citar tantas referências atuais? Poucos sabem que os contos de fadas são na realidade histórias cruéis romanceadas pela Disney. Muito bem romanceadas, diga-se de passagem. Esse romanceamento reservou sonhos e esperanças para as crianças - mas acidentalmente pode ter bitolado muitas delas depois de crescidas. E novelas Globais, por exemplo, fazem isso até hoje - entre tapas e beijos, tudo dá certo no final. 
Colocando a mão de volta à massa, a Disney parece estar revendo isso com esta atualização do conto A Bela Adormecida ou o melhor: de Malévola - aquela que conhecemos como a vilã de toda a história que muitos - assim como eu - passou a conhecê-la no longa animado de 1959 - intitulado originalmente como "Slepeeping Beauty". 

O longa original de 75 minutos passava tão rápido que mal poderia perceber o tempo, assim é com este trabalho com atores de carne e osso. Primeiramente é visto Malévola ainda criança e logo depois adulta, duas fases se passam num ritmo ágil e leve, não chegando a ser cansativo para as crianças - apesar das pitadas de humor muito ingênuas (que muitas vezes só funcionam com a presença de Jolie).

Como Malévola, a jovem Isobelle Molloy é adorável, a exemplo de todas as crianças presentes no longa. Molloy demonstra uma certa maturidade apesar do pouco tempo na tela - ao lado de Michael Higgins (o jovem Stefan). Angelina Jolie logo aparece, expressando olhares sensíveis, ela torna Malévola uma personagem fascinante. Difícil de acreditar que ela tenha assustado tantas crianças nos sets de filmagem com exceção de um momento onde ela rejeita tudo aquilo que ela na verdade mais ama (parece ironia, mas Malévola é quase um inverso completo do que conhecemos sobre Angelina Jolie na mídia - tirando o fator: "mulher forte"). 
Elle Fanning é a "Bela Adormecida" Aurora.


É incrível a semelhança de Elle Fanning com Dakota Fanning - por um minuto achei que fossem a mesma pessoa. A exemplo dos pequeninos, ver a relação entre Angelina e Fanning é de encher os olhos. A dupla tem forte química na tela, deixando qualquer tipo de relacionamento tradicional "Felizes Para Sempre" no chinelo. A maturidade do enredo valoriza o amor fraterno perdido sem deixar de trazer um teor de graciosidade na relação passional - Brenton Thwaites transparece ternura na pele do príncipe Philip.




O papel de Copley mais parece uma adaptação masculina 
da rainha ogra vista na versão de Basile.  

Sharlto Copley também se destaca como um Stefan crescido. Corrompido pela ganância, o criado herda a obsessão do rei Henry (interpretado por Kenneth Cranham), tornando-se um lunático de uma forma que só ele sabe fazer. O queridinho de Nail Bopmak (Distrito 9) chegou a se destacar também com um outro vilão, em Elysium.

Como agora não conhecemos Malévola como bruxa mas sim como uma fada - que algum dia teve asas - o "feitiço" acaba recaindo sobre as três fadas protetoras:  Flittle (Lesley Manville), Knotgrass (Imelda Staunton) e Thistletwit (Juno Temple) - são as atrapalhadas da história. O trio talvez seja o "excesso" de bagagem do filme - já que a graça toda acaba ficando mesmo com a Jolie: ela é quem cativa, faz rir e emocionar. 

Angelina Jolie explora Malévola de uma forma bastante humana, seja nos olhares expressivos (muitas vezes sérios e tristes) ao sorriso conduzido com elegância até mesmo na voz. A maquiagem contribuiu bastante para torná-la quase irreconhecível - as bochechas de seu rosto ficaram emagrecidas e o rosto semi-triangular, como nas características do longa animado. 

Flittle (Lesley Manville), Knotgrass (Imelda Staunton)
e Thistletwit (Juno Temple)
Dentre outros elementos técnicos, destacam-se também a fotografia, trilha sonora e efeitos visuais. A fotografia valoriza a troca de luz e sombra; James Newton Howard mais uma vez encanta sonoramente as cenas de ação - o "climax" causa um grande impacto; já os efeitos visuais, não trazem um 3D satisfatório, o que acaba sendo dispensável.

Eu não tive expectativas (tampouco acompanhei suas divulgações no decorrer do tempo somente alguns poucos trailers). Com o burburinho de diferentes grupos (alguns arriscavam até uma aposta de indicação ao Oscar) - comecei a prestar atenção nas divulgações quando então vi um trailer na Globo exibindo presença de Jolie como Malévola e me despertou a atenção (mesmo sabendo que a atriz atuaria no papel).
A adaptação mistura as versões dos irmãos Grimm e Tchaikovsky, criada no decorrer dos anos com base no conto de Perrault. Apesar de não ser tão ambicioso quanto a divulgação propõe, Malévola certamente agrada com o carisma de Angelina Jolie.

Momento Pós-Crítica
- A garotinha que interpreta a pequena Aurora é na verdade filha de Angelina Jolie e se chama Viviane.
- Juno Temple, uma das fadas, também esteve em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

- O personagem Diaval (Sam Riley) é a cobaia das transformações de Malévola (Angelina Jolie).

EXTRAS
A ORIGEM (QUASE)
SECRETA DA BELA ADORMECIDA

O verdadeiro conto de fadas veio das mãos de um escritor e poeta francês do século XVII chamado Charles Perrault (Paris, 12 de janeiro de 1628 — Paris, 16 de maio de 1703) inspirado por Sol, Lua e Tália ("Sole, Luna, e Talia") do italiano Giambattista Basile, em 1634. Perrault, idealizador da obra , ficou conhecido como "o pai da literatura infantil". Apesar de suas historias possuírem teor adulto, se tornou base para os irmãos Grimm adaptar uma versão suavizada para as crianças em 1812 - esta mesma versão que se tornou base para a adaptação da Disney "A Bela Adormecida" em 59. 

A descrição do conto de Perrault, com base na versão original, foi censurada no decorrer dos anos. Intitulado originalmente como "La Belle au bois dormant" que - Ao Pé da Letra - é traduzido por aqui como A Bela Adormecida no Bosque. A história se encontra no livro Contos da Mamãe Gansa  ("Contes de Ma Mére L'oye" no original).  Os versos traziam a "Moral da História" junto a realidade do cotidiano medieval - recheadas de humor, fantasia e malicia para um tipo novo de ficção juvenil até então. 

A mais chocante revelação encontradas na versão de Basile contava que "A Bela Adormecida" foi abusada sexualmente por um rei durante o sono e acordada pela mordida de um dos seus filhos (fruto desse ato) que lhe retira o veneno da farpa de linho. O acidente originalmente era mencionado como uma previsão de profecia e não de um feitiço. Quem é a "bruxa" na história de Basile é a mulher do rei. Ela tenta comer os bastardos (Sol e Lua) de Talia (a bela adormecida)  e é assassinada pelo próprio rei. No fim, o rei abusador é o verdadeiro príncipe da história que fica com Talia e ambos vivem juntos por longos anos. A minha moral sobre essa história: Quem dera se nos tempos de hoje os papais assumissem seus filhos.

Nos trabalhos literários mais atuais Anna Rice (conhecida pelos livros que deram origem às adaptações cinematográficas: Entrevista com o Vampiro e Rainha dos Condenados) transformou o conto em uma trilogia erótica, entre 1983 e 1985: Os desejos da Bela Adormecida (The Claiming of Sleeping Beauty, 1983); O Castigo da Bela adormecida (Beauty's Punishment, 1984) e A Libertação  da Bela Adormecida (Beauty's Release, 1985). O trabalho - de livre interpretação - faz ligações com os originados pelos tempos medievais, por Basile e Perrault.

A adaptação dos irmãos Grimm citava o nome Aurora pela primeira vez. Enquanto na adaptação Malévola, Aurora é o nome da Bela Adormecida, no livro este é o nome de sua filha. A princesa só ganha esse nome na versão do Russo Tchaikovsky (7 de maio de 1840 Kamsko-Wotkinski Sawod, Udmurtia — São Petersburgo, 6 de novembro de 1893) para uma versão em balé entre 1888–1889, é onde também se origina o nome do príncipe, Philip.

As Versões do Conto Literário 
na Íntegra


A versão de Charles Perault encontrada pelo blog Contos de Encantar

Era uma vez um Rei e uma Rainha que viviam muito tristes por não terem filhos. Fizeram tratamentos em termas de todo o mundo, promessas, peregrinações e devoções especiais. Experimentaram tudo, mas sem resultado. Até que um dia a Rainha ficou grávida e deu à luz uma menina.

Fizeram-lhe um batismo magnífico. Foram escolhidas como madrinhas da Princesinha todas as fadas que foi possível encontrar no país (e encontraram-se sete), para que, com os dons que lhe concedessem, conforme era costume das fadas naquele tempo, a Princesa tivesse todas as perfeições possíveis e imagináveis.

Depois da cerimônia do batismo, regressaram todos em cortejo ao palácio real, onde tinha sido preparado um grande banquete em honra das fadas. O lugar de cada uma tinha sido marcado com um estojo de ouro maciço que continha uma colher, um garfo e uma faca de ouro, enfeitado com diamantes e rubis.

Enquanto cada qual se sentava no seu lugar, chegou uma fada velha, que ninguém se tinha lembrado de convidar, pois havia mais de cinquenta anos que não saía da sua torre e todos pensavam que já estivesse morta. O Rei arranjou-lhe um lugar na mesa, mas não lhe foi possível dar-lhe um estojo de ouro maciço como o das outras, porque só haviam sido feitos sete, um para cada uma das sete fadas. A velha julgou que estavam a desprezá-la e resmungou entredentes palavras ameaçadoras.

Uma das jovens fadas, a que estava sentada ao seu lado, ouviu-a e, temendo que pudesse dar à Princesinha algum presente maléfico, mal todos se levantaram da mesa, foi-se esconder por detrás de um cortinado, para ser a última a falar e, deste modo, poder reparar o mal que a velha lhe viesse a fazer. Entretanto, as fadas começaram a desfiar os dons que traziam à princesa.

A mais jovem deu-lhe o condão de ser a mulher mais bonita do mundo; a segunda, o de ser boa como um anjo; a terceira, ter um encanto admirável em tudo o que fizesse; a quarta, dançar maravilhosamente; a quinta, cantar como um rouxinol; e a sexta, saber tocar qualquer instrumento musical com a máxima perfeição.

Chegada a sua vez, a velha fada disse, abanando a cabeça mais por despeito do que por velhice, que a Princesa espetaria o bico de um fuso na mão e, desse modo, morreria. Um tão terrível dom fez estremecer os presentes, e não houve quem não chorasse. Nesse preciso momento a jovem fada saiu de trás do cortinado e pronunciou em voz clara estas palavras:
- Rei e Rainha, tranquilizai-vos! A vossa filha não morrerá assim. Infelizmente, não tenho poder que chegue para desfazer tudo o que fez uma fada mais velha do que eu. Sim, a Princesinha picar-se-á na mão com um fuso, mas, em vez de morrer, apenas cairá num sono profundo que durará cem anos, findos os quais um príncipe virá acordá-la.

O Rei, desejoso de evitar a desgraça anunciada pela velha, mandou logo distribuir um edital em que se proibia, a quem quer que fosse, fiar com um fuso ou ter fusos em casa, sob pena de morte.

Passados quinze ou dezasseis anos, numa altura em que o Rei e a Rainha tinham ido para uma das suas casas de campo, aconteceu que a jovem Princesa, passeando pelo castelo de quarto em quarto, chegou ao cimo de uma torre. Aí, num pequeno sótão, encontrou uma simpática velha que estava sozinha a fiar.
- Que está a fazer, avozinha? - perguntou a Princesa.

- Estou a fiar, minha querida - respondeu-lhe a velha, que não a conhecia.
- Ah... Que bonito! - exclamou a Princesa. - Como se faz? Deixe-me experimentar, a ver se também sou capaz.

No seu entusiasmo, nem sequer teve tempo de pegar no fuso. O que a fada tinha anunciado, cumpriu-se e a jovem Princesa espetou a mão e caiu sem sentidos. A boa velha pôs-se a gritar por socorro. Acorreu gente de todo o lado. Salpicaram de água o rosto da Princesa, desapertaram-lhe os laços, deram-lhe pancadinhas nas mãos, esfregaram-lhe as têmporas com água-de-colônia, mas nada a fez voltar a si.

Então o Rei, que tinha subido depois de ouvir todo aquele rebuliço, lembrou-se do presságio das fadas. Mandou transportar a Princesa para o mais belo quarto do palácio e deitá-la numa cama bordada a ouro e prata. Parecia um anjo, tão bonita era. O desmaio não lhe alterara as cores: as faces permaneceram rosadas e os lábios cor de coral. Tinha os olhos fechados, mas podia sentir-se a respiração suave, o que significava que não morrera.

O Rei ordenou que a deixassem dormir tranquila, até que chegasse a sua hora de acordar. A fada boa que lhe salvara a vida, encontrava-se no reino de Mataquim, a doze mil léguas de distância, quando se verificou aquele incidente. Contudo, foi logo avisada por um anãozinho que calçava as botas das sete léguas. A fada partiu de imediato e, uma hora depois, viram-na chegar num carro de fogo, puxado por dragões.

O Rei deu-lhe o braço para a ajudar a descer do carro e a fada aprovou tudo o que ele tinha feito, mas, porque era muito previdente, pensou que, quando a Princesa acordasse, se sentiria perdida, se ficasse completamente sozinha naquele velho castelo.

Assim, tocou com a sua varinha em tudo o que se encontrava no castelo (excepto no Rei e na Rainha): governantas, damas de honor, criadas de quarto, cortesões, oficiais, mordomos, cozinheiros, ajudantes, moços, guardas, pajens, escudeiros. Tocou também em todos os cavalos que havia nas cavalariças, nos grandes mastins de guarda e, por fim, na pequena Pufi, a cadelinha da Princesa, que estava junto dela na cama. Mal lhes tocou, todos adormeceram, para só acordarem quando a sua Princesa acordasse. Deste modo, todos estariam prontos a servi-la quando fosse necessário. Até os espetos que estavam ao lume cheios de perdizes e de faisões adormeceram; e o mesmo aconteceu com o lume.
Tudo isto se passou num instante: as Fadas são desembaraçadas nas suas tarefas.

Então o Rei e a Rainha, depois de terem beijado a sua querida filha sem a despertarem, saíram do castelo e decidiram proibir que alguém se aproximasse dali. Esta proibição não era necessária, pois dentro de um quarto de hora cresceu a toda a volta do parque uma tal quantidade de árvores, grandes e pequenas, de silvas e de tojos, tão emaranhados uns nos outros que nem animal, nem homem algum poderia passar. Assim, só se conseguiam ver as ameias das torres do castelo e mesmo só de muito longe.

Passados cem anos, o filho do rei que então reinava, e que pertencia a uma família diferente da da Princesa, passou por aqueles lugares à caça. Quis saber o que eram as torres que se avistavam sobre tão grande e tão densa floresta. Cada qual lhe repetia o que tinha ouvido dizer. Segundo uns, tratava-se de um velho castelo habitado por espíritos, segundo outros, todos os bruxos do país vinham celebrar ali as suas cerimônias mágicas. De acordo com a maioria das pessoas, o edifício era habitado por um ogre que para ali levava todas as crianças que conseguia apanhar, a fim de as comer confortavelmente e sem ser incomodado, pois só ele possuía o condão de abrir uma passagem através do bosque. 

O Príncipe não sabia em que havia de acreditar, até que um velho camponês lhe disse:
- Meu bom Príncipe, há mais de cinquenta anos ouvi o meu pai dizer que naquele castelo há uma Princesa, a mais bela do mundo. Deverá dormir durante cem anos e será acordada pelo filho de um Rei, ao qual está destinada.

Ao ouvir estas palavras, o jovem Príncipe sentiu uma grande emoção e decidiu sem hesitar que teria de ser ele a pôr fim a tão bela aventura. Levado pelo amor e pela glória, resolveu ir imediatamente saber o que realmente se passava.

Quando avançou em direção ao bosque, as grandes árvores, as silvas e os tojos afastaram-se para o deixarem passar. Caminhou, sem dificuldade, em direção ao castelo e, surpreendido, verificou que nenhum dos membros da sua comitiva tinha podido segui-lo, porque as árvores se voltavam a cerrar mal ele passava.

Entrou num grande pátio e tudo o que aí viu o enregelou de medo: um silêncio terrível, por todo o lado a imagem da morte. Corpos de homens e de animais, estendidos no chão, pareciam sem vida.

Atravessou um grande pátio, subiu a escadaria, entrou na sala dos guardas que permaneciam alinhados, ressonando ruidosamente. Passou por vários quartos cheios de fidalgos e de damas, todos adormecidos, uns de pé, outros sentados. Entrou depois num quarto todo dourado, onde viu, sobre uma cama, uma Princesa muito bela que parecia ter quinze ou dezasseis anos. Aproximou-se a tremer e ajoelhou-se a admirá-la. Então, chegado o fim do encantamento, a Princesa acordou e, olhando-o ternamente, disse-lhe:
- Sois vós, meu Príncipe? Demorastes muito tempo!

O Príncipe, fascinado com estas palavras, não sabia como demonstrar a sua alegria. Declarou-lhe simplesmente que a amava mais do que a si próprio. Sentia-se mais tímido do que ela, o que não é para admirar: a linda Princesa tivera muito tempo para sonhar com o que havia de lhe dizer, pois, segundo parece a boa Fada, durante tão longo sono, dera-lhe o prazer de ter bons sonhos. Havia quatro horas que conversavam e ainda não tinham dito metade das coisas que queriam dizer um ao outro.

Entretanto, todo o palácio tinha acordado com a Princesa. Cada um tratava do que lhe dizia respeito e, como não estavam apaixonados, estavam cheios de fome. A dama de honor disse à Princesa que a refeição estava servida. O Príncipe ajudou a Princesa a levantar-se. Estava magnificamente vestida e muito linda.

Passaram ao salão dos espelhos e aí jantaram, servidos pelos criados da Princesa. Os violinos e os oboés tocaram músicas antigas mas muito bonitas, embora tivessem estado quase cem anos sem se fazerem ouvir.


Terminada a refeição, celebrou-se o casamento. Os príncipes abriram o baile e a festa durou uma semana.

A versão dos Irmãos Grimm (base da Disney para as suas duas adaptações)

Há muito tempo, viviam um rei e uma rainha que todos os dias diziam:“Ah, se nós tivéssemos uma criança!”, e nunca conseguiam uma. Aí aconteceu que, uma vez em que a rainha estava se banhando, um sapo rastejou para fora da água e lhe disse “Seu desejo será realizado; antes que se passe um ano, você dará à luz uma menina”. 

Aquilo que o sapo dissera aconteceu, e a rainha teve uma menina que era tão formosa que o rei mal se continha de felicidade, e preparou uma grande festa. Ele não apenas convidou seus parentes, amigos e conhecidos, como também as fadas, a fim de obter suas boas graças para a criança. Havia treze delas em seu reino, mas como ele só possuía doze pratos de ouro, nos quais elas poderiam comer, uma delas teria de ficar em casa. A festa foi celebrada com toda a pompa e, quando chegou ao fim, as fadas presentearam a criança com dotes mágicos: uma com a virtude, outra com a formosura, a terceira com riqueza, e assim com tudo o que há de desejável no mundo. 

Quando onze já tinham falado, entrou de repente a décima terceira. Ela queria se vingar por não ter sido convidada e, sem cumprimentar ou mesmo olhar para quem quer que seja, exclamou aos brados: “A princesa deverá espetar-se em um fuso quando tiver quinze anos, e cair morta.” E sem dizer mais nada, virou as costas e deixou o salão. Todos estavam assustados, e então adiantou-se a décima segunda, que ainda não tinha feito seu desejo, e como não podia anular a maldição, mas apenas abrandá-la, ela disse: “A princesa não morrerá, apenas cairá em um sono profundo que durará cem anos.”O rei, que queria salvar sua querida criança do infortúnio, ordenou que todos os fusos do reino inteiro fossem queimados. 

Na menina, entretanto, realizaram-se plenamente todos os dons das fadas, pois ela era tão bela,educada, gentil e sensata que todos que a viam não podiam deixar de gostar dela. Sucedeu que, justamente no dia em que ela completava quinze anos, o rei e a rainha não estavam em casa, e a menina estava sozinha no castelo. Ela andou então por todos os cantos, examinou à vontade aposentos e câmaras, e finalmente chegou até uma velha torre. Subiu a estreita escada em espiral e deparou-se com uma pequena porta. Na fechadura havia uma chave enferrujada e, quando ela a girou, a porta se abriu de um só golpe e lá, em um quartinho, estava sentada uma velha com um fuso, fiando diligentemente seu linho. “Bom dia, velha mãezinha”, disse a princesa, “o que você está fazendo aí?” “Eu estou fiando,” disse a velha, e balançou a cabeça. “O que é isto, que pula tão alegremente?” perguntou a menina, e pegou o fuso querendo também fiar. Mal ela tinha tocado o fuso, a maldição se realizou, e ela espetou-se no dedo.

Mas, no mesmo instante em que foi picada, ela caiu na cama que ali estava, e foi tomada de um profundo sono. E este sono estendeu-se por todo o castelo: o rei e a rainha, que tinham acabado de chegar e entrado no salão,começaram a dormir, e com eles toda a Corte. Dormiram então também os cavalos no estábulo, os cachorros no pátio, as pombas no telhado, as moscas na parede, e até o fogo, que chamejava no fogão, ficou imóvel e adormeceu, e o assado parou de crepitar, e o cozinheiro, que queria puxar seu ajudante pelos cabelos porque ele havia feito uma coisa errada, soltou o menino e dormiu. E o vento assentou-se, e nas árvores defronte ao castelo nem uma folhinha se movia.

Ao redor do castelo começou porém a crescer uma cerca de espinhos, que a cada ano ficava mais alta e que, por fim, estendeu-se em volta de todo o castelo e cobriu-o de tal forma que nada mais se podia ver dele, nem mesmo abandeira sobre o telhado. Começou então a correr no país a lenda da bela adormecida, pois assim era chamada a princesa, de modo que de tempos em tempos chegavam príncipes que tentavam penetrar no castelo através da cerca viva. Mas nenhum deles conseguiu, pois os espinhos estavam tão entrelaçados como se tivessem mãos, e os jovens ficavam presos neles e não conseguiam se soltar, sofrendo uma morte lastimável. Depois de muitos anos, chegou mais uma vez um príncipe ao reino e ouviu quando um velho contava da cerca de espinhos, e que havia um castelo atrás dela, no qual uma linda princesa, chamada Bela Adormecida, já dormia há cem anos, e com ela dormia o rei e a rainha e toda a corte. 

Ele também sabia pelo seu avô que muitos príncipes já haviam vindo e tentado penetrar pela cerca viva de espinhos, mas haviam ficado presos nela e morrido tristemente. O jovem então disse: “Eu não tenho medo, eu quero ir lá e ver a Bela Adormecida.” O bom velho tentou dissuadi-lo de todos os modos, mas ele não deu ouvidos às suas palavras.Mas agora os cem anos tinham justamente acabado de transcorrer, e havia chegado o dia em que Bela Adormecida deveria acordar. Quando o príncipe se aproximou da cerca de espinhos, estes não eram agora mais do que flores grandes e bonitas que por si sós se abriram e o deixaram passar ileso, e se fecharam atrás dele, formando novamente uma cerca. 

No pátio do castelo ele viu os cavalos e os cães de caça malhados deitados e dormindo, no telhado estavam pousadas as pombas, e tinham a cabecinha metida debaixo da asa. E quando ele entrou na casa, as moscas dormiam na parede, o cozinheiro na cozinha ainda levantava a mão como se quisesse agarrar o menino, e a criada estava sentada diante da galinha preta que deveria ser depenada. Ele então continuou andando, e avistou no salão toda a corte deitada e dormindo, e lá em cima, perto do trono, estavam deitados o rei e a rainha.

Aí ele continuou andando ainda mais, e tudo estava tão quieto que se podia ouvir sua respiração, e chegou finalmente à torre e abriu a porta do quartinho, no qual Bela Adormecida dormia. Lá estava ela deitada, e era tão bela que ele não conseguia desviar os olhos, e ele se inclinou e beijou-a. Quando ele a tinha tocado com os lábios, Bela Adormecida abriu os olhos, acordou e olhou para ele amavelmente.Então os dois desceram, e o rei acordou, e a rainha e toda a corte, e se olharam espantados. E os cavalos no pátio se levantaram e se sacudiram; os cães de caça pularam e abanaram suas caudas; as pombas no telhado tiraram a cabecinha de sob a asa, olharam ao redor e voaram para o campo; as moscas nas paredes recomeçaram a rastejar; o fogo na cozinha levantou-se, chamejou e cozinhou a comida; o assado voltou a crepitar; e o cozinheiro deu um tamanho tabefe no menino que este gritou; e a criada terminou de depenar a galinha. E aí foram festejadas com todas as pompas as bodas do príncipe com a Bela Adormecida, e eles viveram felizes até o fim.

Abaixo, segue como era a história de Basile (onde a "princesa" se chamava Talia) - traduzido por Karin Volobueff - da coletânea "Il Pentamerone ossia La fiaba delle fiabe" (onde pode ser encontrado originalmente). A tradução foi feita a partir da edição em italiano preparada por Benedetto Croce (Bari: Gius. Laterza & Figli, 1925, vol. II. p. 297-303):
Era uma vez um grande senhor, o qual, tendo-lhe nascido uma filha, a quem deu o nome de Tália, chamou todos os sábios e adivinhos de seu reino para que lhe dissessem a sorte. Estes, após várias consultas, concluíram que ela estava exposta a um grande perigo devido a uma farpa de linho. E o rei proibiu que em sua casa entrasse linho ou cânhamo ou outro pano similar para evitar qualquer encontro maligno. 

Certa vez, quando Tália já estava crescida e se encontrava à janela, avistou uma velha que fiava; e, como jamais havia visto nem conhecia um fuso, agradando-lhe muito a dança que o fuso fazia, foi presa pela curiosidade e mandou chamar a velha para que subisse até ela, e, tomando a roca nas mãos, começou a estender o fio. Mas, por desgraça, uma farpa lhe entrou na unha e instantaneamente ela caiu morta ao chão.

A velha, diante desta desgraça, fugiu precipitadamente pela escada; e o desventurado pai, após ter chorado um barril de lágrimas, assentou 
Tália em uma poltrona de veludo debaixo de um dossel de brocado, no interior do próprio palácio, que ficava em um bosque. Depois, cerrada a porta, abandonou para sempre a casa, motivo de todos os seus males, para apagar completamente de sua lembrança o infortúnio sofrido. 

Depois de algum tempo, andava um rei à caça por aqueles lugares, e tendo-lhe fugido um falcão, que voou para a janela daquela casa e não atendia aos chamados, fez bater à porta, acreditando que a casa fosse habitada. Mas, após ter batido em vão por um longo tempo, o rei, tendo mandado buscar uma escada de um vinhateiro, quis subir pessoalmente à casa e ver o que acontecia lá dentro. Após subir e entrar, ficou pasmado ao não encontrar viva alma; e, por fim, chegou à câmara onde jazia Tália, como que encantada. 

O rei, acreditando que ela dormia, chamou-a. Mas, como ela não voltava a si por mais que fizesse e gritasse, e, ao mesmo tempo, tendo ficado excitado por aquela beleza, carregou-a para um leito e colheu dela os frutos do amor, e, deixando-a estendida, voltou ao seu reino, onde por um longo tempo não se recordou mais daquele assunto. 

Depois de nove meses, Tália deu à luz a um par de crianças, um menino e uma menina, duas joias resplandecentes que, guiadas por duas fadas que apareceram no palácio, foram por elas colocados nos seios da mãe. E uma vez que as crianças, querendo mamar, não encontravam o mamilo, puseram na boca justamente aquele dedo que tinha sido espetado pela farpa e tanto o sugaram que acabaram por retirá-la. Subitamente pareceu a Tália ter acordado de um longo sono; e, vendo aquelas duas joias ao lado, ofereceu-lhes o seio e enterneceu-se profundamente por elas.
Mas não conseguia entender o que lhe tinha acontecido, encontrando-se totalmente só naquele palácio, com dois filhos ao lado, e vendo que lhe era trazido tudo o que ela desejava comer, sem que se notasse a presença de qualquer pessoa. 

Um dia o rei se recordou da aventura com a bela adormecida e, aproveitando a ocasião de uma nova caçada naqueles lugares, veio vê-la. E, tendo-a encontrado desperta e com aqueles dois prodígios de beleza, sentiu um enorme contentamento.

Contou então a Tália quem ele era e o que tinha acontecido; e criou-se entre eles uma grande amizade e união, e ele ficou muitos dias em sua companhia. Depois se despediu com a promessa de vir buscá-la e levá-la para seu reino; e, nesse meio tempo, tendo retornado à sua casa, falava a todo momento em Tália e nos filhos. Quando comia, tinha Tália em sua boca, e também Sol e Lua (pois estes eram os nomes das crianças); quando deitava, chamava-a e aos filhos. 

A mulher do rei, que por causa das demoradas caçadas do marido já tinha tido alguns lampejos de suspeita, com estas invocações de Tália, Lua e Sol foi tomada de um ardor maior do que de costume; e por isso, tendo chamado o secretário, disse-lhe: “Escute, meu filho, você está entre Cila e Caribde, entre o batente e a porta, entre a grade e a tranca. Se você me disser de quem meu marido está enamorado, eu o farei rico; e, se me esconder a verdade, farei com que nunca mais o encontrem, nem morto, nem vivo”. E este, de um lado transtornado pelo medo, de outro levado pelo interesse, que é uma faixa sobre os olhos da honra e da justiça, um estorvo para a fidelidade, contou-lhe tudo tintim por tintim. 

A rainha enviou então o próprio secretário em nome do rei até Tália, mandando dizer-lhe que ele queria rever os filhos; e esta, com grande alegria, os enviou. Mas aquele coração de Medéia, logo que os teve entre as mãos, ordenou ao cozinheiro que os degolasse e preparasse com eles diversas iguarias e molhos para dar de comer ao pobre pai. 

O cozinheiro, que tinha bom coração, ao ver aqueles dois pomos áureos de beleza, teve pena deles e, confiando-os à mulher para que os escondesse, preparou com dois cabritos variadas iguarias. Quando chegou a hora da ceia, a rainha fez servir os manjares; e, enquanto o rei comia com grande gosto, exclamando: “Como isto é bom, pela vida de Lanfusa!”, ou “Como é saboroso este outro, pela alma do meu avô!”, ela o encorajava, dizendo-lhe: “Coma, que está comendo o que é seu”. O rei, 
por duas ou três vezes, não prestou atenção a estas palavras; mas depois, ouvindo que esta cantilena prosseguia, respondeu: “Sei muito bem que estou comendo o que é meu, porque você não trouxe nada para esta casa”; e, levantando-se encolerizado, dirigiu-se a uma aldeia um pouco distante para tranqüilizar-se. 

Ainda não satisfeita com tudo o que acreditava ter feito, a rainha mandou de novo o secretário chamar a própria Tália, com o pretexto de que o rei a esperava; e esta veio imediatamente, desejosa de encontrar a sua luz e não sabendo que o fogo a esperava. Conduzida diante da rainha, esta, com uma carranca de Nero, muito irritada, disse-lhe: “Seja bem vinda, senhora Troccola! Você é aquele tecido delicado, aquela boa relva com que meu marido se delicia? Você é aquela cadela malvada que me trouxe tantas dores de cabeça? Pois bem, é hora de entrar no purgatório, onde eu lhe farei pagar pelos danos que me causou!”. 

Tália começou a desculpar-se, dizendo que a culpa não era sua e que o marido tinha tomado posse de seu território enquanto ela estava adormecida. Mas a rainha não quis ouvir desculpas e, mandando acender no meio do pátio do palácio uma grande fogueira, ordenou que Tália fosse nela lançada. 

A infeliz, vendo-se perdida, ajoelhou-se diante dela e suplicou que lhe desse ao menos tempo de retirar as vestes que trazia sobre si. E a rainha, não tanto por pena da desventurada, mas para poupar aqueles trajes recobertos de ouro e pérolas, disse-lhe: “Dispa-se, que lhe dou permissão”. 

Tália começou a despir-se, e a cada peça que retirava, lançava um grito; até que, tendo já retirado o manto, a saia e o blusão, quando foi tirar a anágua, lançou o último grito, ao mesmo tempo em que a arrastavam para o fogo. Mas nesse instante acorreu o rei, que, vendo o espetáculo, quis saber o que tinha acontecido. E, tendo chamado pelos filhos, ouviu da própria mulher, que o recriminava pela traição, como ela o havia feito comê-los. 

O rei se entregou ao desespero. “Então fui eu mesmo - gritava - o lobo das minhas ovelhinhas? Ai de mim, e por que as minhas veias não reconheceram a fonte do seu próprio sangue? Ah, turca renegada, e que crueldade é essa sua? Pois bem, você recolheu a lenha, e não mandarei essa face de tirano ao Coliseu para penitência!”. 

Assim dizendo, ordenou que a rainha fosse lançada no mesmo fogo aceso para Tália, e junto com ela o secretário, que tinha sido instrumento deste triste jogo e tecelão da malvada trama; e queria fazer o mesmo ao cozinheiro, que acreditava ter picado seus filhos com o facão. Mas este atirou-se a seus pés e lhe disse: 
“Deveras, senhor, não haveria outra recompensa pelo serviço que vos prestei que não um forno de brasas; não haveria outro soldo que não um bastão nas costas; não haveria outro entretenimento que não estorcer-me e crispar-me no fogo; não haveria outra honra que não a de ver misturadas as cinzas de um cozinheiro com as de uma rainha! Mas não é este o agradecimento que eu espero por ter salvo vossos filhos, a despeito daquela que queria matá-los para restituir ao vosso corpo 
aquilo que era parte desse mesmo corpo”. 

O rei, ao ouvir estas palavras, ficou fora de si e lhe parecia que sonhava, não podendo acreditar naquilo que suas orelhas ouviam. Depois, dirigindo-se ao cozinheiro, disse: “Se é verdade que você salvou meus filhos, esteja seguro de que o retirarei das tarefas de girar o espeto e o colocarei na cozinha do meu peito a girar como lhe aprouver as minhas vontades, dando-lhe tais prêmios que o mundo o chamará feliz”. 


Enquanto o rei dizia estas palavras, a mulher do cozinheiro, que viu os apuros do marido, trouxe Lua e Sol para diante do pai, o qual, abraçado a eles, distribuía um redemoinho de beijos a um e a outro. E, tendo dado uma grande recompensa ao cozinheiro e feito-o ajudante de câmara, tomou Tália como esposa, a qual gozou uma longa vida com o marido e os filhos, aprendendo que de um modo ou de outro  aquele que tem sorte, o bem mesmo dormindo, obtém.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Maleficent
Duração: 97 Minutos
Gênero: Fantasia/ Aventura
Sessão Acompanhada: UCI New York City Center - 13:00 - N 11 - 31/5/2014
Direção: Robert Stromberg
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