quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

[Sessão Crítica] A Substância: se não tiver estômago, não assista

 

Corpos perfeitos. Glamourização da nostalgia. A Substância é a química perfeita para a geração do Instagram — mas apenas para os fortes.

O ambiente retrofuturista ilustra um cenário reimaginado que entrelaça referências entre o presente e o passado. A obra pode ser encarada como uma comédia de humor negro e ficção científica que, brilhantemente, remete a clássicos atemporais como A Mosca e A Coisa, ou até ao sessentista O Professor Aloprado (cuja refilmagem de 1997 com Eddie Murphy se aproxima ainda mais deste pelo tom de comédia mórbida). Outra conversa clara é com Cisne Negro — por sua vez, uma adaptação não declarada do longa animado Perfect Blue.

Nessa engrenagem, a dobradinha Moore/Qualley funciona com precisão. Enquanto a experiente Demi Moore disputa a atenção com a evolução natural de sua personagem, a presença de Margaret Qualley leva o espectador ao encantamento e ao estranhamento. A obsessão pela competição feminina por atenção está implícita em cada quadro, o que se revela genial.

Além das atuações, é interessante notar a sua construção técnica. A diretora utiliza uma estética asséptica e cores saturadas para criar um ambiente que é, ao mesmo tempo, sedutor e repulsivo. Através de planos detalhe invasivos e um terror corporal gráfico, a obra não apenas conta uma história, mas agride os sentidos, transformando a busca pela juventude em um espetáculo visceral de carne e som. Os cortes de edição, por vezes, reforçam essa agressividade, fazendo o espectador sentir que está assistindo a um curta estendido ou a um videoclipe de pouco mais de duas horas.

O filme também dialoga com elementos atuais, como o etarismo e a busca pela perfeição física plastificada das modelos digitais — as "bonecas de cera" criadas por inteligência artificial, sintéticas e perfeitas dentro de seus limites concebidos.

Mas é preciso ter estômago para aguentar o choque. Em tempos difíceis, a mensagem de A Substância é forte e visceral. Os mais sábios certamente precisarão de um tempo para refletir após os créditos subirem.


SESSÃO CRÍTICA 
 A SUBSTÂNCIA 
Sessão Acompanhada: HBO MAX (18/02/26)
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