SENSIBILIDADE E SANGUE
Historicamente, remover protagonistas de suas histórias e adicionar outros liderando tramas futuras no lugar raramente dá certo no cinema. Nos quadrinhos, essas transições de expansão de universo soam bem naturais; coadjuvantes como Miles Morales ou o próprio Robin tiveram raríssimas reprovações.
Um exemplo bem próximo, dentro da lógica “do Universo de John Wick”, é O Legado Bourne — o primeiro e único derivado da cinessérie sem Jason Bourne (ou seu intérprete original, Matt Damon). Apesar do competente Jeremy Renner, seguir por uma nova direção não funcionou muito bem. A verdade é que mexer no que já está funcionando gera uma probabilidade muito grande de levar um tiro no pé. Ninguém quer saber de histórias de vilões do Homem-Aranha se tornando heróis ou anti-heróis acreditando que isso vai dar tão certo quanto o "amigão da vizinhança", ou de vilões de James Bond ganhando histórias derivadas. Romantizar vilões e vilanizar heróis parece ser a nova onda do momento.
John Wick mostrou Keanu Reeves como o astro de ação definitivo a seguir com o legado deixado por Tom Cruise em Missão: Impossível. É compreensível que Bailarina queira introduzir um tremendo desafio: lançar uma protagonista feminina com a bênção do original em um universo já consolidado. Geralmente, heroínas de ação sempre foram um desafio imenso no cinema; dentre dez, apenas uma ou duas se destacam. É preciso considerar a resistência física e uma personalidade que combine com o universo. Ao invés do espetáculo de testosterona dos homens, no lado das heroínas deve prevalecer o intimista e o emocional — ou o "delicado" servir de pretexto para estabelecer a ação clássica.
Tivemos boas heroínas de artes marciais nos anos 80 que inspiraram até videogames, como Cynthia Rothrock. Temos ainda Sarah Connor e sua transformação de mocinha em perigo para uma "tremenda Rambo" nos anos 90. São padrões que funcionaram naquela época, mas que hoje são questionados. No terror, por exemplo, protagonistas como Sidney Prescott, em Pânico, ainda funcionam bem como representação de ação, pois a luta é pela vida. O problema surge quando a disputa física é entre humanos altamente habilidosos.
Em O Exterminador do Futuro 2, Sarah Connor atua como uma guerrilheira: usa armas e estratégias de infiltração, consciente de que não ganharia fisicamente de um homem mais bruto. Já em Bailarina, Eve Macarro, a personagem de Ana de Armas, demonstra os sacrifícios do corpo a cada trajeto contra antagonistas sanguinários e impiedosos. Assim como Indiana Jones não é 007, isso serve para dizer ao espectador que Eve não é John Wick. O filme ainda conta com oponentes femininas para equilibrar a história, o que soa como um "roteiro suavizado".
A narrativa avisa: “ela é pequena e não deve contar com a força bruta”. Porém, por vezes, esse detalhe é esquecido e ela resolve situações com facilidade. O que a salva são as limitações: ela ruge de raiva, fica exausta e é abatida. Em um mundo perigoso como o de Wick, pela lógica, ela já teria sido eliminada, algo que o próprio treinamento dela deixa transparecer. Eve conta com armas de fogo, brancas ou o que tiver à frente para se manter de pé, criando uma "dança" involuntariamente engraçada dentro da lógica da história.
Ana de Armas se esforça ao trazer sensibilidade no olhar sereno e, por vezes, um leve medo que ressoa ao dramático. O ritmo é menos acelerado e mais emocional, expandindo a mitologia para algo mais pessoal. Claro, os absurdos ainda estão lá. Não é John Wick, mas ainda diverte. Vemos as mesmas coisas, mas ainda sobra um fanservice quanto ao encontro épico entre John e sua aprendiz (se assim podemos considerar). No fim, a luta por vingança vira sobrevivência. Fica a questão: a personagem durará muito tempo ou continuará sendo salva pelos absurdos do roteiro?
Buscando não diminuir o ritmo, apesar do tema batido, a sina da personagem segue fielmente o espírito da franquia e não decepciona. Vale conferir.
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