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quarta-feira, 1 de abril de 2026

[História dos Videogames] O Lado B da Street Fighter Mania: Como a Geração Nintendo Moldou um Fenômeno




Em 6 de Janeiro de 2021... 

Às vésperas do meu aniversário...
O mestre Jean-Claude Van Damme...
Falou comigo.


Ô LOUCO!

Eu precisava realmente falar sobre isso. 

Astro dentre os maiores filmes de ação dos anos 80 e 90, Jean-Claude Van Damme foi sem dúvida alguma uma peça importante para promover a marca Street Fighter. Ele sempre relembra em suas redes sociais o momento em que foi escalado para assumir a boina do seu eterno coronel Guile sob holofotes hollywoodianos. Em paralelo, os japoneses lançavam a sua adaptação.


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Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. 

Por trás de um estabelecimento fechado frente a estação deste local na Zona Norte do Rio,  havia um fliper que hoje não existe mais. Foi aqui que vi a máquina original de Street Fighter II: The World Warrior em ação pela primeira vez. A essa altura, eu já havia conhecido Street Fighter II, através do Mega Drive e no Super Nintendo. Agora, era hora de conhecer esta história do Arcade.

Foi também neste estabelecimento que vivi alguns dos momendos mais mágicos e divertidos nos Arcades. Algumas partidas icônicas no lendário Arcade 4 jogadores The Simpsons. Sim, era eu pequenino e mais outros 3 grandalhões jogando juntos nessa máquina enquanto o fliper estava lotado. De quebra, havia um Final Fight 2 de Super Nintendo embutido e alguém veio colocar uma ficha. 

Em certo momento, um capanga solta granada  matando o seu companheiro de organização. Eu e meu parceiro, dois desconhecidos um para o outro, testemunhando uma experiência única. Rachamos o bico daquela situação inusitada (será que enganamos a IA do jogo?). Uma sacada boa daquela surpreendente sequência de Final Fight.


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A febre dos arcades japoneses vira fenômeno da geração Nintendo. 

Um certo dia, na escola, eu escuto meus colegas conversando um com o outro sobre Yoga Fire, Cuz Cuz. E eu então paro a conversa e pergunto: "-Do que vocês estão falando?" 

Voltando da escola, me deparo com uma fila quilometrica sobre uma padaria. a fila virava a calçada. Parecia algum show para acontecer no bar da padaria. Mas era o dia 1 de Street Fighter II o dono deste show surreal. Alguma coisa estava acontecendo.. um grande evento?  Sim! Escuto uma voz de derrota, a gangue do Ryu estava entre nós. Mas, quem é esse Ryu?

Indo e voltando na mesma rua diversas vezes, de repente, vozes digitalizadas ecoavam daquela padaria - era o Ryu perdendo na maquina, mas eu nao conseguia nem vver a imagem.

Aquele jogo estava me perseguindo. Era como aquela famosa cena do filme O Iluminado, e imagino o Ryu saindo daquela porta, me chamando: "Vamos jogar um Street?"

Até meus primos, que nunca foram familiarizados, se viram jogando Mortal Kombat e Street Fighter ou até Marvel vs. Street Fighter e me convidando para jogar. Eu fiquei, assim, de cara, sem entender nada daquilo. Embora, na época, tudo isso fosse muito comum, como ver crianças com Free Fire no celular, aqueles jogos eram o nosso Fortnite. 

Eu sequer sabia direito o que era um jogo eletrônico ou sequer estava por dentro dessas terminologias aí de época da era de ouro dos videogames. Bom, quase isso, eu já havia jogado CCE e Master System entre 1989 e 1990. Eu ficava impressionado  e confuso ao mesmo tempo com aquela mágica eletrônica. Eu não tinha tanta intimidade assim com tecnologias ou simuladores. Meu negócio eram os minigames, o meu auge foi aquele de bloquinhos em 8 em 1, sabe? E as revistinhas da Turma da Mônica. 


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Mortal Kombat vs. Street Fighter e o efeito surpresa.

Eu lembro que meu Pa, seu Malaquias, perguntou entre o minigame 16 em 1 ou uma surpresa. Foi uma decisão muito difícil escolher. Fiquei intrigado e arrisquei na surpresa. Eis que acabo surpreendido por um presente coloridamente FELIZ em plena manhã: Revista Herói de 1995, falando do filme Mortal Kombat.


WOOOW!

Muito antes de me dar conta do que era Mortal Kombat III, ele estava nas minhas mãos. Mortal Kombat III veio muito rápido para o Mega Drive, felizmente, pois eu nunca vi no fliper. Fiquei surpreso porque era como jogar um jogo novinho do arcade no Mega Drive. Era tudo muito novo, novíssimo, gráficos, clima, etc. — então me surpreendi muito com a conversão.

No dia seguinte, meus colegas estavam conversando sobre o Friendship do Cyrax na escola.   Felizmente, eu pude acompanhar a felicidade deles e entrar de cabeça na conversa. E então rolou um papo de: "Cyrax agora dança boquinha na garrafa" no Friendship e começamos a achar graça daquela situação.  

E numa certa noite de sexta-feira, o SBT me solta uma propaganda frenética com cenas daquele que será Os Cavaleiros do Dono do Baú: Street Fighter II. UOOOL! 

1995 foi também um bom ano para acompanhar fenômenos culturais da era dos jogos de luta tanto na televisão quanto no cinema. Que ano para ser feliz, graças a Deus. 

Era uma incrível coincidência que, nesse mesmo fluxo de tempo, a Rede Globo me soltava uma baita matéria sobre o Japão mencionando a série Street Fighter II V — que havia recém-lançado na terra do sol nascente e adquirido para o SBT. 

Sim, frente aos pequenos e poderosos SBT e Rede Manchete, a Globo não poderia apenas fechar os olhos e tratar este evento apenas como concorrência na programação.  Pois é, a cultura pop japonesa estava entre nós e nem o senhor Roberto Marinho poderia escapar dessa febre.  

Esse momento Street Fighter na TV era quase como um horário eleitoral: você sintonizava a Rede Globo e tinha uma baita matéria do Japão com Street Fighter II, o desenho da TV, sintonizava o SBT e estava dando a propaganda de estreia de Street Fighter II V, a mesma série animada. Não havia como escapar, a febre da Street Fighter Mania estava entre nós, mais forte do que nunca e na sua natureza mais forte, o lado B, direto do Japão, na sua mais bela forma, agora em animação. 

Foi também, nesse ano que os Street Fighters chegavam ao vivo e a cores nos cinemas brasileiros em 12 de abril de 1995. Minha primeira experiência em ver o filme americano em ação foi uma matéria que saiu na manhã de um jornal da Rede Bandeirantes em uma sexta-feira, anunciando o lançamento nos cinemas com cenas de explosões, cenas do elenco preso por Bison, sinopse do filme e o clássico Game Over do Raul Julia. 

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O fenômeno Street Fighter II invade os cinemas japoneses.

Street Fighter II estreava nos cinemas com um longa animado fiel às artworks oficiais. Era a arte que você via nos pôsteres e cartazes do videogame em movimento. UOOOL!

Aí eu tive, curiosamente, um sonho meio estranho. Eu sonhei que o grande sucesso de Street Fighter II MOVIE causou alvoroço no Japão. Com ingressos esgotados, as novas remessas tiveram que ser distribuídas em promoções de revistas em bancas de jornal. Ninguém poderia perder o grande fenômeno dos cinemas japoneses. O sonho me dizia que tudo isso ocorria meses antes do lançamento. Na verdade, tinha outro filme surgindo meses depois. E era em terras hollywoodianas. 


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O longa animado chega ao Brasil.

Em meio aos episódios finais de Street Fighter II, o longa animado chegava ao Brasil. Street Fighter II: O Filme foi a visão definitiva de uma adaptação do maior fenômeno dos videogames daquela geração. 

Produzido direto da fonte oriental, frente ao lançamento do filme americano nos EUA. Na verdade, o longa animado estreava meses antes no Japão e o filme americano em dezembro de 1994 nos cinemas americanos.

Ao longo dos anos, as diferenças regionais das versões distribuídas do filme dividiram gerações específicas da audiência que estavam passando a descobrir tanto a versão original asiática quanto o corte da versão americana.


A T U A L I D A D E

Embora a febre Street Fighter II tenha se iniciado em meio à ascensão da cultura pop japonesa, a cultura americana estava muito enraizada durante a era de ouro dos jogos de luta. Muitos costumes tiveram que se adaptar ao gosto americano — como histórias adaptadas até mesmo do videogame para o Ocidente.

Seja a relação estranha entre Cammy e Bison, a visão mais violenta e realista dos quadrinhos americanos da Malibu ou a troca de nomes dos chefões, a cena competitiva americana de Street Fighter II também era mais familiar que a japonesa antes do fenômeno EVO Moment #37 da geração internet 1.5 que explodiu nos fóruns e sites de videogame em 2004. 

Pouco se conhecia sobre a cena japonesa dos torneios e eventos promocionais, mas também havia as atrizes que se fantasiavam profissionalmente como Chun-Li e também modelos vestindo camisas promocionais dos eventos oficiais de campeonatos da Capcom que ocorriam muito antes da Capcom Cup protagonizada por Street Fighter IV na era moderna.

Street Fighter II se localizou para o ocidente, mas ainda há muita alma japonesa nele. 

Hoje, temos denominações ou referências específicas disso tudo que já existia, como as atrizes fantasiadas, agora representadas pela comunidade cosplayer, as 'idols' modernas que se tornam os novos holofotes nas redes sociais. Além de astros de cinema entusiastas que também buscam engajar numa presença promocional, ou influenciadores digitais que se misturam com as comunidades de jogos de luta eSports de Street Fighter. Algo que já era intenso lá fora. 

Com a febre asiática ganhando o mundo, uma nova ótica estava nascendo. A visão ocidental estava junta e misturada com a do sol nascente.  Street Fighter estava voltando às suas origens da casa.